A fome senta à mesa em Itaquá

Banco de Alimentos para de fornecer produtos agrícolas no município; 5 mil famílias devem ficar desprovidas, algumas já temem a fome

Por Renan Xavier

Do Jornal Gazeta Regional

Com as órbitas fundas e escuras emoldurando o olhar, dona Lázara Dantas, 59 anos, aponta o indicador para o céu crepuscular e alaranjado de Itaquaquecetuba em sinal de esperança. “Eu acredito Nele. A comida vai voltar”, responde quando questionada sobre a suspensão do fornecimento de hortaliças pelo Banco de Alimentos e as dificuldades que tem enfrentado para alimentar a própria família.

Há um mês, a moradora do Parque Recanto Mônica contava com o complemento do Banco de Alimentos do município, assim como outras milhares de pessoas espalhadas pela cidade. O fornecimento de verduras e legumes, no entanto, foi suspenso devido ao fim dos repasses a agricultores que subsidiavam os estoques.

Questionada, a prefeitura descartou a possibilidade de lançar um contrato emergencial para arcar com a produção: “Não tem previsão orçamentária em 2016”.

Desde a suspensão, a qualidade nutricional das refeições de Lázara despencou e as verduras migraram do prato para a memória. “Era bom demais. Eu pegava repolho, alface, tomate, mandioca, couve-flor, batata-doce, frutas… Ajudava muito. Agora eu como só arroz e feijão – quando tem. Já aconteceu de eu dormir com fome”, revela.

A senhora mora há 13 anos numa casa na rua Mariporã com a única filha e o genro, ambos portadores de deficiências auditivas e desempregados.

A Prefeitura de Itaquá agendou visita da unidade do Recanto Mônica do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) a Lázara e informou que ela está incluída no Cadastro Único (CadÚnico), com inscrição renovada em maio último, sendo beneficiária do programa federal Bolsa Família.

Pobreza é regra

“Infelizmente, a situação de Lázara não é uma exceção no Recanto Mônica e em toda a cidade”, afirma Florência Beltrão, com a propriedade de quem testemunha de perto o fantasma da miséria em Itaquá desde a década de 90. Florência é presidente do Clube da Criança, entidade sem fins lucrativos que distribuía os produtos alimentícios no bairro. Ela relata que, desde a interrupção dos repasses ao Banco de Alimentos, dezenas de pessoas já a abordaram pedindo explicações sobre a suspensão.

“Uma senhora me abordou na feira, domingo, perguntando se poderia lavar louça na minha casa em troca de um prato de comida. Esses apelos são comuns e demonstram o desespero das pessoas”, relata Florência.

Retratos

Desempregada há um ano, Renata Souza carrega nos braços o pequeno João Lucas, caçula dos quatro filhos. Mora com o marido, também sem emprego há um ano, tendo como principal fonte de renda o valor de R$ 182 do programa federal Bolsa Família. “Nós sobrevivemos com pouco. O Banco de Alimentos ajudava a garantir uma refeição um pouco mais decente para as crianças”, lamenta.

Elaine da Silva já não precisava recorrer aos alimentos quando foram suspensos, mas recorda da ajuda que representaram numa fase financeira difícil. A moradora do Recanto Mônica está desempregada e somente o marido trabalha no momento, garantindo o sustento dos três filhos, ainda adolescentes.

O que a Prefeitura diz

Sobre a suspensão das atividades do Banco de Alimentos, a Prefeitura de Itaquaquecetuba, por meio de nota, esclareceu que os recursos eram destinados pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), órgão ligado ao Governo Federal, diretamente aos agricultores, sem passar pela prefeitura. O corte teria ocorrido em função da crise financeira.

Questionados pelo Gazeta Regional sobre a possibilidade de formalização de um contrato emergencial, informaram que não há previsão de que isso seja realizado. “Não há meios legais e financeiros para a Prefeitura absorver essa demanda”.

O que o Governo Federal diz

O Gazeta regional questionou o MDS sobre a suspensão dos repasses. Segue a resposta, na íntegra:

“O município de Itaquaquecetuba já executou os recursos do Plano Operacional de 2015, no valor de R$ 1 milhão. Ainda não há previsão de recursos para um novo PO. Ele está na mesma situação de outros 131 municípios que já estariam aptos a entrar em uma nova Portaria. De acordo com o secretário da secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – Sesan, Caio Rocha, os recursos para o município, que está entre as cidades prioritárias, serão mantidos. No entanto, neste momento, não há orçamento para lançar novas portarias em função do corte orçamentário ocorrido na gestão anterior”.

Fotos: Renan Xavier


Comentários no Facebook