Agricultura familiar produz alimento para programas de assistência em SP

Foto: Renan Xavier

De acampamento do MST a assentamento produtor de alimentos, Sítio da Casa Grande se aproxima dos 20 anos de existência; líder comemora. 

Por Renan Xavier

De Biritiba

Dirceu Ribeiro nunca se esquecerá do dia 26 de abril de 1996, quando liderou 56 famílias durante a ocupação do Sítio Casa Grande, uma área de 1,6 mil hectares, em Biritiba Mirim. Na época, o agricultor era coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); hoje, quase 20 anos após o primeiro acampamento, é líder comunitário no local, que em 2016 completará 10 anos de área assentada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Além disso, preside a Associação dos Pequenos Agricultores e Produtores do Casqueiro, que destina mensalmente até 100 toneladas de alimentos para a região do Alto Tietê e abastece bancos de alimentos dos municípios de Mauá, Santo André e São Paulo.

Contemplados pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), as famílias de agricultores do Assentamento do Sítio Casa Grande produzem hortaliças e vegetais para a capital paulista e municípios da região do ABC. Esses alimentos vão para entidades de assistência social, restaurantes populares, cozinhas comunitárias e bancos de alimentos. De lá, são distribuídos gratuitamente a pessoas ou famílias que precisam de suplementação alimentar, por estarem em situação de vulnerabilidade nutricional. Segundo Dirceu, poucos municípios da região do Alto Tietê aderiram ao programa, que dispensa licitação para a aquisição de produtos cultivados por meio da agricultura familiar.

O próximo passo para os assentados de Biritiba, segundo ele, é ingressar no Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), passando a fornecer alimentos para unidades escolares de toda a educação básica, educação infantil, ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos da rede pública de ensino.

O líder da cooperativa estima que, se houver um trabalho organizado, a cooperativa pode ter um rendimento anual de até R$ 100 mil por família associada. Hoje, são 96 associados à cooperativa, sendo 36 famílias homologadas pelo Incra. A construção da sede da cooperativa é esperada já para 2016 e já foi licitada, ao valor de R$ 350 mil, a obra de construção do prédio.

Vivendo da terra

Já distante no calendário, a data que marcou o início da luta pela terra ainda está viva na memória de Dirceu Ribeiro. Um fato marcante da tomada da fazenda pelos trabalhadores rurais ocorreu ainda na primeira semana de ocupação, quando a assistente social do Incra visitou o local para cadastrar os trabalhadores na lista de cesta básica. “Nós não queremos cesta nenhuma, apenas a terra para plantarmos”, teria declarado Dirceu à funcionária, que se emocionou. A determinação em se fixar no local também esteve presente nestes primeiros tempos, quando os ocupantes deram início à construção de casas de pau-a-pique. “E se vocês perderem a causa e tiveram as casas demolidas? Não é melhor erguer barracas de lona?”, preocupou-se, mais uma vez, a funcionária. “Não ligamos. O importante é vivermos com dignidade”, retrucou o então sem-terra.

Hoje, com plantações de feijão, milho, berinjela, abobrinha, entre outros alimentos, Dirceu garante que seus filhos poderão escolher a profissão que quiserem, mas pretende incentivá-los a seguir seu exemplo e viver da lavoura.

Foto: Renan Xavier

Foto: Renan Xavier

*Reportagem publicada originalmente no Jornal Gazeta Regional


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