ARTIGO: Primeiro de Maio: Nenhum passo atrás

Por José Zico Prado*

Sempre me considerei um agricultor por vocação e um peão de profissão. Digo isso porque a história da minha família é de trabalhadores rurais que, sem terra própria para plantar, trabalhava de arrendatário nas fazendas da região noroeste do Estado. Sem perspectiva e já envolvido com a luta dos agricultores viemos para a cidade de São Paulo no final da década de 60 e aqui passei a trabalhar como prenseiro no chão da fábrica, me especializando posteriormente como ferramenteiro.

Hoje, ao chegar aos 70 anos de idade, percebo que o meu envolvimento com a luta dos trabalhadores e trabalhadoras, do campo e da cidade, é parte da minha trajetória muito antes de conhecer a definição do termo consciência de classe. O que permeou a minha vida foi a consciência de luta por oportunidades para todos.

Sei o quanto é dura a vida do trabalhador assalariado e o quanto foi difícil a conquista de cada direito, esses que hoje parecem simples, como o vale refeição, vale transporte, redução de jornada, adicional de insalubridade, data-base, todos alcançados após muita negociação, assembleias, piquetes, greves e ainda, vez por outra, driblando a repressão do patrão, que no fim das contas é quem tem a caneta na mão e o poder de demissão.

Vivenciei isso em várias fábricas em que trabalhei. No meu tempo, nem refeitório tínhamos e a marmita era comida em pé, em torno das máquinas. Foi preciso muita organização social, muita coragem de tantos companheiros e companheiras que, por vezes, enfrentaram a truculência policial, e até a morte, como o nosso querido Santo Dias, que pagou com a vida por não desistir de lutar e reivindicar direitos trabalhistas.

O Brasil viveu, na última década, o que definem como ponto fora da curva, com o rompimento do ciclo dos governos conservadores caracterizados pelo arrocho salarial, hiperinflação e privatizações.

Com a eleição do Presidente Lula, abriu- se a temporada de avanços e conquistas dos trabalhadores. O salário mínimo que valia $70 dólares em 2002 hoje vale $255 dólares, houve o crescimento do número de trabalhadores com carteira assinada de cinco para mais 15 milhões de registros, o que revigorou a Previdência Social, garantiu-se a extensão dos direitos trabalhistas às profissionais domésticas, a correção da tabela de imposto de renda como meio de garantir a valorização do poder de compra dos trabalhadores, entre outras conquistas do povo brasileiro.

Nos governos do PT consolidaram-se políticas públicas que possibilitaram inclusão, formação e qualificação aos trabalhadores por meio de programas como o Prouni, Pronatec, Política de Cotas, Fies, ações que romperam a tradição de exclusão e garantiram a formação da primeira geração de universitários em muitas famílias brasileiras.

Entretanto, desde a reeleição da Presidenta Dilma, em 2014, diariamente o governo tem sofrido ataques das forças conservadoras e reacionárias que não aceitam os resultados das urnas e buscam enfraquecer e inviabilizar o governo, com o objetivo claro de romper o ciclo de combate às desigualdades que possibilitaram a empregadores e empregados viajarem lado a lado, num avião. Esta é a origem da escalada de ódio contra nós que buscamos uma sociedade menos desigual.

O golpe em curso contra a Presidenta, que não cometeu crime de responsabilidade, gera um cenário de grande incerteza para o país, e em especial para os trabalhadores. As bancadas de oposição se realinham em torno de um vice-presidente sem legitimidade e apontam movimentos rumo ao retrocesso. No vácuo da crise política e econômica, miram contra os direitos trabalhistas tais como FGTS, 13º salário e férias remuneradas.

Há quem defenda ainda o aumento da idade mínima para aposentadoria, a aprovação do PL 4330, que trata da terceirização e consequente redução de direitos e salários dos trabalhadores; tudo para garantir mais lucro para os empresários, como deseja a Fiesp, principal patrocinadora dos ataques golpistas contra o governo Dilma.

Querem transformar o Brasil num retrato do estado de São Paulo, governado pelo PSDB há 24 anos: sem transparência, sem diálogo com a sociedade, truculento e entreguista. Por aqui faltam investimentos em áreas prioritárias como transporte e mobilidade, saúde, segurança pública e educação. Como exemplo o estado de São Paulo é um dos únicos que ainda não debateu um Plano Estadual de Educação linha gestora das políticas públicas para a área. Os servidores públicos estaduais sofrem com a falta de um plano de cargos e salários.

Por tudo isso, este dia do trabalhador tem um novo significado. Nenhum passo atrás é a nossa palavra de ordem. Resistir ao golpe e aos ataques aos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras é o que nos une, nos motiva e nos anima a ocupar as ruas neste domingo.

Neste primeiro de maio nossa força é a nossa voz. Vamos dizer em alto e bom som aos golpistas do Brasil: Somos linha de frente de toda essa história, respeitem quem pôde chegar aonde a gente chegou.

*José Zico Prado é deputado estadual e líder da Bancada do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo


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